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Gina: saúde ginecológica para quem o consultório nunca soube receber

Service DesignUX/UIEstratégia de Produto

[ 2018–2021 · Bienal de Design Gráfico · BNDES Garagem · FIAP Top 20 ]

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Gina — capa do projeto

Foi em 2018 que apresentei pela primeira vez o projeto que mudaria a minha vida. A pergunta que me movia era fácil de fazer e difícil de resolver: por que uma mulher que se relaciona com outra mulher não encontra um médico que saiba cuidar dela?

A Gina nasceu dessa pergunta. Começou como trabalho de conclusão de curso, virou startup, passou por aceleradora e prêmio, e no caminho deixou de ser um aplicativo para virar um ecossistema que prepara, conecta e cuida. Este é o caso de como isso aconteceu, e também do que não deu certo.

O problema real

O ponto de partida não era saúde da mulher em geral. Era um recorte específico e mal atendido: mulheres lésbicas e bissexuais, dentro do consultório ginecológico.

Os números explicam o tamanho do buraco. Apenas 47% das mulheres que se relacionam com mulheres fazem consulta ginecológica anual. Entre mulheres cis-heterossexuais, o índice quase dobra, na casa dos 76%. Até 2021, esse foi o único levantamento que o governo brasileiro produziu sobre essa população. Milhões de pessoas resumidas a um único relatório.

A raiz do problema não estava só na paciente que deixa de procurar o médico. Estava no médico que não sabe recebê-la. Muitos profissionais ainda repetem a ideia de que o corpo lésbico não corre risco de infecção porque não há penetração, uma crença ultrapassada e falsa. Nas entrevistas que fiz, ouvi relato de piada durante o exame, de médica insistindo para a paciente "parar de se relacionar com mulheres", de recusa em pedir exames porque a paciente foi considerada virgem. O resultado é previsível: a mulher troca de médico o tempo todo, ou simplesmente para de ir.

Uma decisão logo no começo: abrir para todas as mulheres

A primeira escolha difícil veio antes de qualquer tela. Se o problema era das mulheres lésbicas e bissexuais, o instinto óbvio seria fazer um produto exclusivo para elas. Foi justamente o caminho que descartei.

Um serviço só para esse público cairia no que a teoria de design chama de paradigma integrativo: trata a pessoa como diferente, oferece uma solução à parte e, no fim, reforça a separação que dizia combater. Eu queria o paradigma inclusivo. Defini o público como todas as mulheres, independentemente de orientação, e mantive o conteúdo e o cuidado voltados para quem se relaciona com mulheres dentro do mesmo espaço, sem gueto. A conversa com mulheres heterossexuais confirmou a intuição: muitas também abandonam o acompanhamento por trauma de consultório. A dor era mais larga do que o recorte inicial.

Ouvir antes de desenhar

Antes de desenhar qualquer coisa, fui ouvir. Entrevistei sete mulheres lésbicas e bissexuais, de cidades e classes diferentes, e três médicos especialistas. Depois apliquei uma pesquisa quantitativa que trouxe 253 respostas de mulheres em quinze estados.

O achado mais duro veio das entrevistas: todas as sete mulheres responderam que não se protegem durante o sexo. Não por descuido, mas por falta de informação confiável sobre como fazer isso. A internet era a principal fonte, com todo o risco que isso carrega.

O que a pesquisa deixou claro foi um vácuo de informação confiável, e a primeira resposta a ele foi conteúdo. Desenhei uma área aberta, no formato de um jornal de saúde, com pauta feita para esse público e acessível a qualquer pessoa, dentro ou fora da conta. Manter esse conteúdo fora do paywall foi decisão consciente: se o problema era acesso à informação, cobrar por ela contrariava o motivo de existir do projeto.

Área de conteúdo aberto da Gina, no formato de jornal de saúde
Área de conteúdo aberto da Gina, no formato de jornal de saúde

Do lado dos médicos, a conclusão foi ainda mais reveladora. A faculdade não ensina saúde e sexualidade de mulheres lésbicas, bissexuais ou trans. Como me disse uma das médicas que entrevistei, os livros de ginecologia foram escritos por homens, e os estudos sobre o corpo da mulher também. O médico nem sempre age de má-fé. Muitas vezes só faltam insumos. Essa frase mudou o projeto, e eu ainda não sabia o quanto.

As escolhas que definiram a Gina

Primeiro a paciente, depois o médico

No TCC de 2018, tomei uma decisão de escopo consciente: desenhar primeiro a jornada da paciente e deixar a do médico para depois. Sabia que estava adiando a parte mais difícil, e registrei isso no próprio trabalho. Era uma escolha, não um esquecimento.

Três anos depois, entrando no MBA, essa ordem se inverteu. Quanto mais eu estressava a solução, mais percebia que o caminho mais curto para resolver a dor daquelas mulheres não passava por conectá-las a bons médicos. O verdadeiro gargalo era a formação: não havia bons profissionais em número suficiente para conectar a ninguém.

De marketplace a ecossistema

A Gina começou como um marketplace. A premissa era simples: existem bons profissionais, meu trabalho é ajudar a mulher a encontrá-los. Essa premissa foi ficando furada. A semente da resposta estava na minha própria pesquisa de 2018, quando um dos médicos me disse que o que ele mais valorizava eram "pílulas de conhecimento", conteúdo de atualização em formato curto. Levei até 2021 para entender que aquilo não era um detalhe. Era o núcleo.

Persona da médica: Dra. Raquel, com as dores que a Gina resolve pelo lado do profissional
Persona da médica: Dra. Raquel, com as dores que a Gina resolve pelo lado do profissional

Foi aí que nasceu o ginaEnsina, o braço de formação de médicos, e foi aí que a Gina deixou de só conectar oferta para passar a criá-la. Um app virou um ecossistema que prepara o médico, conecta ele à paciente e cuida dela ao longo do tempo. Cresceu em ambição e em complexidade, e eu topei o custo.

Painel do médico na Gina, com avaliações, desempenho e o ginaEnsina
Painel do médico na Gina, com avaliações, desempenho e o ginaEnsina
Sincronização de exames via Open Health, com consentimento da paciente
Sincronização de exames via Open Health, com consentimento da paciente

O modelo de negócio

O modelo de negócio foi onde mais apanhei, e também onde tomei as decisões das quais mais me orgulho. Escolhi cobrar do médico uma mensalidade fixa, sem tocar no valor da consulta e sem taxa por agendamento. A concorrência fazia o contrário, descontando uma porcentagem de cada consulta marcada. Eu não queria taxar o atendimento. Queria um custo previsível, que alinhasse o interesse da Gina ao do médico em vez de morder o trabalho dele.

O número que amarrava tudo era R$ 250. Ele funcionava como teto da consulta para a paciente assinante e, ao mesmo tempo, como base de cálculo da mensalidade do médico. Não saiu do nada: veio de um benchmark real, o Coletivo Feminista de Saúde e Sexualidade, referência em São Paulo desde os anos 80, que cobra exatamente esse valor.

Para o problema clássico de todo marketplace de dois lados, aquele em que nenhum lado aparece antes do outro, eu tinha uma resposta no papel: monetizar primeiro só o ginaEnsina, os cursos, e adiar o algoritmo de encontro entre médico e paciente para quando a base já fosse robusta o bastante para o match fazer sentido. No papel, fechava.

Da pesquisa à tela

A parte visível da Gina seguiu a mesma lógica de decisão fundamentada. Optei por um Web App responsivo em vez de um aplicativo nativo, apoiada na própria pesquisa: as usuárias preferiam acessar pelo navegador ou não faziam questão, mesmo achando o app mais rápido. Um site que funciona bem no celular resolvia sem obrigar ninguém a baixar nada.

Pesquisa de comportamento digital que sustentou a escolha por Web App
Pesquisa de comportamento digital que sustentou a escolha por Web App

Na identidade, cuidei do detalhe. A tipografia usava uma fonte só para os numerais, porque a altura dos números da fonte principal destoava das letras e incomodava a leitura. A paleta partiu das cores da bandeira bissexual e recusou de propósito o rosa como sinônimo de feminino. Organizei tudo em Atomic Design, com mais de cem telas desenhadas para três tamanhos de tela.

Testei duas vezes com usuárias, e numa das rodadas incluí de propósito uma mulher de mais de 60 anos, fora do público-alvo, para checar acessibilidade de verdade. Foi o teste que me disse que a busca precisava ser por especialidade, sem filtro sobrando, e que faltava uma feature inteira: o rastreador de ciclo menstrual nasceu de um feedback, não do meu plano. O drive de exames também. Nem tudo o que a Gina virou estava no projeto original, e isso é bom sinal.

A amplitude das telas da Gina na identidade nova: login, home, histórico, Open Health e o painel do médico
A amplitude das telas da Gina na identidade nova: login, home, histórico, Open Health e o painel do médico
A Gina no celular: login, home e histórico de exames
A Gina no celular: login, home e histórico de exames

O que deu certo e o que travou

A Gina foi mais longe do que a maioria dos projetos de portfólio chega. Em 2019, foi selecionada para a 13ª Bienal Brasileira de Design Gráfico. Em 2020, foi pré-selecionada no BNDES Garagem e chegou até a penúltima etapa da aceleradora. Em 2021, entrou na lista das vinte startups mais inovadoras do ano pela FIAP. Esse reconhecimento não veio só de banca de faculdade; veio de aceleradora e de prêmio de inovação de mercado.

Ainda assim, não se sustentou. Durante a fase da FIAP, montei um time voluntário de cerca de vinte pessoas. Reuni gente boa em torno de um propósito e tive bom retorno como líder na época, o time gostava de trabalhar comigo. Mesmo assim, ele se desfez. Inflei rápido demais uma estrutura que ainda não existia, e as pessoas foram desanimando. Foi ali que aprendi, na prática, que propósito reúne um time, mas não é o que segura um time de pé. O que segura é organização, ritmo e clareza sobre o que se espera de cada um. É um dos aprendizados que mais carrego comigo, e ele custou caro.

A monetização travou junto. A projeção financeira do curso fechava no papel, com lucro já nos primeiros meses. Na realidade, a assinatura de conteúdo não se pagou e os médicos não demonstraram o interesse que eu esperava. O marketplace de dois lados, aquele problema que eu tinha resolvido no papel, segue sendo o meu maior desafio em aberto até hoje.

Escolhi contar isso em vez de esconder. Um projeto que ganhou Bienal, aceleradora e prêmio de inovação, e que mesmo assim não encontrou um modelo que se pagasse, ensina mais do que um final feliz inventado ensinaria.

Onde isso me deixou

A Gina começou como trabalho de faculdade e virou o projeto que me formou como designer. Ela me obrigou a pesquisar antes de opinar, a defender um posicionamento, a desenhar produto pensando no negócio que o sustenta, e a olhar de frente para o que não funcionou. Ganhei Bienal, aceleradora e prêmio, e mesmo assim não achei o modelo que a mantivesse de pé. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é por isso que ela continua sendo o trabalho do qual mais aprendo. Ainda quero dar vida a ela por inteiro.

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