Do /imagine ao time de agentes
[ 02 de julho de 2026 · 6 min de leitura ]
palavras-chave: ia aplicada, design de produto, processo, carreira

Faz um tempo que eu e a IA trabalhamos juntas. Resolvi contar como essa dupla foi se formando, dos meus perrengues no Discord até ela virar parte do jeito que eu penso o trabalho.
Minha primeira vez foi numa madrugada, dentro de um servidor de Discord, digitando /imagine pra um bot e torcendo pra sair alguma coisa parecida com o que eu tinha na cabeça. Quase nunca saía. Eu ajeitava a frase, mandava de novo, ajeitava outra vez. No meio daquilo eu não fazia ideia de que estava treinando a habilidade mais importante de todas: pedir.
Isso foi lá por 2022, quando o Midjourney ainda vivia dentro do Discord e parecia mais brincadeira de nerd do que ferramenta de trabalho. Pois é. De lá pra cá troquei de ferramenta uma porção de vezes, e o meu jeito de trabalhar foi mudando junto.
Antes de qualquer IA, código já andava comigo
Só que, se eu for honesta, essa nem é a primeira cena. Design e código já andavam comigo muito antes de qualquer IA. Com uns 9, 10 anos eu montava uns bancos de dados tortos no Access e, na quarta série, quando o primeiro Harry Potter estreou, diagramava um jornalzinho dele no Word. Você acredita? As duas metades do que eu faço até hoje, o layout e a lógica, já estavam ali. Depois vieram anos colada em desenvolvedor e construindo design system, que é onde design e código se encostam de verdade. Quando a IA enfim chegou, não achou uma página em branco: achou um acúmulo de anos e deu vazão pra ele.
E tem uma coisa que eu só fui perceber agora, montando essa linha do tempo: eu já rondava a ideia de IA muito antes de conseguir usar uma. Lá em 2018, na Gina, o projeto que mudou a minha vida, eu desenhei uma assistente de saúde que na época eu chamava de chatbot. Ela fazia triagem, ajudava a marcar consulta e apontava possíveis diagnósticos, inspirada no Watson, a IA da IBM. Eu ainda não tinha como construir aquilo sozinha, e a ferramenta pra isso ainda ia demorar anos. Mas a mentalidade já estava lá.
O melhor exemplo disso é a arte generativa. Aquela feita com código eu já tinha tentado bem antes. Anos atrás estudei Processing com Python justamente pra fazer na mão, e travei. Tinha a noção básica, lia o código, entendia a lógica por trás, mas não chegava sozinha no resultado que imaginava. Foi com o ChatGPT que a ficha caiu. Eu descrevia a ideia, ele escrevia o Processing, eu lia, ajustava, entendia onde tinha errado e pedia de novo. Pela primeira vez a arte generativa que vivia na minha cabeça saiu pra tela.
Hoje leio CSS, HTML, Python e um pouco de JavaScript. Parte disso veio de antes, do design system e da convivência com quem programa; parte foi lapidada nesse vai e volta com a máquina. Não pra virar desenvolvedora, mas pra conversar de igual pra igual: pedir com precisão, entender o que ela me devolve e sacar na hora quando alguma coisa não fecha.
Hoje passo a maior parte do tempo com o Claude, em todas as versões que foram saindo, junto com um monte de outras ferramentas pra cada tipo de tarefa. E não é mais "me gera uma imagem" ou "me escreve um texto". A gente constrói coisa junto: app, site, fluxo de trabalho, e até time de agentes, cada um com uma função, conversando entre si pra dar conta de um projeto inteiro.
O que mudou de verdade não foi a ferramenta
E aqui vem a parte que eu mais gosto de pensar. O que mudou de verdade nesses anos? A ferramenta muda toda semana, isso todo mundo vê. Fato. Mas se fosse só isso, eu seria só uma pessoa que troca de app de tempos em tempos. O que mudou fui eu.
No Discord eu era usuária. Recebia o que o bot me dava e aceitava. Hoje eu dirijo. Sei o que quero antes de pedir, sei quebrar um problema grande em pedaços, sei quando o resultado tá bom de verdade e quando tá só bonito. A habilidade que fui construindo tem menos a ver com "saber usar IA" e mais com saber pensar em voz alta com ela e conduzir.
Tem uma frase que ficou comigo: código virou material do designer. Concordo, e puxaria mais longe. Pra mim a IA inteira virou material de trabalho, não só o código. Ela deixou de ser aquele truque que a gente usa de vez em quando e passou a fazer parte de como eu penso o problema desde a primeira linha. Quando isso vira mentalidade, e não mais ferramenta avulsa, o trabalho muda de patamar: o que levava semanas passa a sair num ciclo, e sobra tempo pro que só gente faz, que é decidir o que merece existir.
E isso, no fundo, é design. Quando eu monto um time de agentes, faço a mesma coisa de um projeto de produto: definir papéis, desenhar o fluxo entre eles, decidir o que cada um resolve e como um entrega pro outro. O que dá forma pra IA continua sendo repertório, critério e intenção. Isso nenhum prompt gera por você.
Não vou romantizar, porque nem sempre é lindo. Tem dia que a ferramenta me leva duas horas pra dentro de um caminho errado. Tem resposta confiante e completamente errada. Tem hora que eu teria feito mais rápido na mão. A diferença é que agora eu percebo quando isso tá acontecendo e sei a hora de puxar o freio. Esse é o pulo do gato, e é ele que separa quem usa IA de quem trabalha com IA.
Uma dica pra quem tá começando agora
Se você tá começando agora e se sente atrás, uma dica que eu queria ter ouvido antes: não tente "aprender a ferramenta". Ela vai mudar mesmo, é da natureza dela. Aprenda a pedir. Pega uma tarefa chata e pequena, escreve o que você quer como se explicasse pra um estagiário esperto, olha o resultado com olho crítico, ajusta, repete. É isso. O resto é ir evoluindo e brincar de lego, igual sempre foi.
Escrevendo tudo isso me caiu uma ficha meio boba e bonita ao mesmo tempo: a menina que diagramava jornalzinho no Word e mexia no Access não pegou atalho nenhum pra chegar aqui. Veio andando, o caminho inteiro. E, olhando pra trás, eu tô exatamente onde deveria estar.
No fim, a IA não tomou o meu lugar. Ela esticou o alcance do que eu já sabia fazer. E eu tô bem curiosa pra descobrir quem eu vou ser trabalhando com a próxima ferramenta, essa que ainda nem existe.
Um beijo e até a próxima!
A capa deste post é uma arte generativa que fizemos em código: um string art de multiplicação modular, prima da peça que fiz pro projeto do Sebrae, com a base gerada no GPT e o refino e a exportação no Processing.
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