O que é design? Voltei pra reescrever minha própria resposta
[ 05 de julho de 2026 · 4 min de leitura ]
palavras-chave: design, reflexão
Esse texto já teve uma primeira versão, lá em 2019. Reli faz pouco e percebi que a menina que escreveu aquilo acertou quase tudo, menos o final. Então puxei a cadeira pra consertar o final.

Na época, eu abria contando de uma discussão em sala. A gente brigava sobre design ser ou não uma forma de arte, e eu, taurina teimosa, batia o pé que era. Foi o Rafael Cardoso, no "Design para Um Mundo Complexo", que me fez engolir a teimosia: design e arte têm propósitos diferentes. Um se propõe a resolver um problema, o outro não precisa resolver nada. Aquela foi minha primeira definição, e por anos ela me bastou.
Hoje me parece curta demais.
Se me perguntarem agora, numa mesa de bar, o que é design, eu respondo outra coisa: design é projeto e estratégia. É pensar antes, decidir com critério, dar forma a uma intenção. Só que essa metade sozinha vira slide bonito de portfólio, um plano elegante pra ninguém. A outra metade, a que segura tudo de pé, é fazer produtos e serviços que as pessoas usem, se identifiquem e que resolvam suas dores pelo caminho. E olha, escondido nesse "se identifiquem" mora um papo mega legal sobre design emocional, mas esse eu guardo pro próximo post.
A empatia não saiu de cena. Ficou mais urgente.
O texto de 2019 terminava com uma frase pela qual ainda tenho carinho, e que hoje eu não assinaria: que se todo mundo fosse um pouco designer, o mundo seria melhor. Bonito, ingênuo. O que eu defendo até hoje é o miolo daquilo: quando a gente se dispõe a ocupar o lugar do outro, ganha uma diversidade de óticas sobre a mesma situação que muda o que a gente constrói. Isso não envelheceu. Fato. Se mudou alguma coisa, é que ficou mais raro.
E aqui entra a virada que a Helena de 2019 não tinha como enxergar. Todo mundo apostou que a IA ia diminuir a necessidade de empatia. Comigo aconteceu o contrário. Pra pedir bem pra uma máquina, eu preciso saber com muita clareza o que as pessoas precisam, e isso não sai de dentro do meu computador. Sai de conversa. Sai de olhar gente no olho.
Só que é justamente essa parte que anda se perdendo. Vejo cada vez mais gente usando IA pra testar percepção de uso, pra prever o que um humano vai sentir diante de um produto. Confesso que não sei como isso funciona de verdade. Tem nuance que a máquina não me devolve: uma expressão de dúvida, um segundo a mais de hesitação, um desconforto que a pessoa nem chega a verbalizar. É nesse detalhe que mora o design bom. E é exatamente esse detalhe que só aparece na conversa real.
A parte que ninguém coloca no currículo
Tem uma verdade que a Helena de 2019 não tinha estrada pra saber, e que preciso registrar aqui porque é a que mais me formou.
Muita vez você chega com dado, com técnica, com anos de domínio da sua área. E mesmo assim vence o "eu acho". Vence o gosto do dono. Vence o PM que decidiu antes de perguntar. Aí você refaz tudo depois, quando o problema que você já tinha previsto aparece, e perde um tempo que não volta.
Demorei pra entender que isso não é falha do meu trabalho. É parte dele. Design de verdade pede uma habilidade que nenhuma faculdade ensina direito: ser político, resiliente e analítico o suficiente pra atravessar a barreira entre os pares. O trabalho não termina na melhor resposta. Ele termina quando você consegue levar a mesa inteira do "eu acho" e "gosto assim" até um "confio nessa resposta por causa dos dados que você me mostrou". Quando essa travessia acontece, o design acontece junto. Quando não, ele fica preso no seu Figma.
Pois é. Ninguém te avisa que metade da profissão é essa.
Olhando os dois textos lado a lado, o de 2019 e esse, não tenho vergonha do primeiro. Ele era honesto pro tamanho que eu tinha na época. Só cresceu comigo. A empatia continua no centro, agora com músculo. A estratégia entrou. E a política, que eu nem sabia que existia, virou ferramenta de trabalho.
Se eu tivesse que espremer tudo numa frase pra você levar pra casa, seria essa: design é método e caos organizado com finalidade clara.
Daqui a sete anos eu volto pra reescrever de novo. Já aviso.
Um beijo e até a próxima!
[ Leia também ]

Do /imagine ao time de agentes
Do Midjourney ao Claude: minha jornada de IA aplicada ao design de produto, de quem pedia imagem a um bot no Discord a quem hoje dirige times de agentes.
[ 6 min de leitura ]
Bonito demais pra ser testado: o efeito estética-usabilidade
Interface bonita faz o usuário gostar mais do seu produto. Também faz ele te dar nota alta num teste que ele acabou de falhar na sua frente. O efeito estética-usabilidade é a armadilha mais educada da pesquisa com usuário.
[ 6 min de leitura ]
Por que você ama um app e odeia outro (mesmo fazendo a mesma coisa)
Paguei a promessa do último post: design emocional. Os três níveis do Don Norman explicam por que a gente decide gostar de um produto muito antes de entender ele.
[ 5 min de leitura ]