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A parte difícil
nunca foi a tela.

Sou designer de produto há mais de dez anos. Meu trabalho é dar direção de design e cuidar da governança do design system em produtos grandes, com muita gente mexendo ao mesmo tempo. Também construo as ferramentas de IA que sustentam esse trabalho. Na Signify liderei sete designers em mais de um país. Antes disso, entre 2019 e 2021, montei a área de design do zero na Genial e o time chegou a quatro pessoas: contratei, dei feedback, mentorei estagiários e designers. Sempre pelo mesmo caminho: direção e craft antes de cargo.

A tela é a parte que aparece. O trabalho pesado está antes dela: transformar padrão espalhado em sistema que outros times usam sem precisar perguntar, e colocar design na conversa de negócio enquanto a decisão ainda está aberta.

No que me aprofundo

IA aplicada de forma concreta: sistemas de agentes, pipelines com aprovação humana e ferramentas internas que eu mesma desenho e opero. É prática, não vocabulário: design e tecnologia no mesmo movimento.

Cheguei aqui por baixo. Em 2022 eu passava madrugada num servidor de Discord digitando comando pra um bot e torcendo pra sair alguma coisa parecida com o que eu tinha na cabeça. Quase nunca saía. Sem perceber, eu estava treinando a habilidade que sustenta tudo o que faço hoje: pedir com precisão.

Leio CSS, HTML, Python e um pouco de JavaScript, o suficiente pra conversar de igual pra igual com quem programa e com a máquina: pedir direito, entender o que volta e perceber na hora quando alguma coisa não fecha. Virar desenvolvedora nunca foi o ponto. Design system foi onde aprendi isso, porque é onde design e código se encostam de verdade.

E tem a parte que nenhum agente assume por você, que é gente. Estudo gestão de pessoas, mentoria e liderança de design com a mesma seriedade que estudo ferramenta: como alguém entra júnior e sai capaz de decidir sozinho, e que tipo de conversa faz isso acontecer.

Acessibilidade é estudo contínuo por aqui, e a raiz dele é design universal: desenhar para a faixa larga de gente desde o começo, em vez de abrir exceção depois para quem ficou de fora. É o assunto onde a distância entre o que o time acha que entregou e o que a pessoa consegue usar costuma ser maior, e é sobre ele que eu escrevo com mais frequência.

E tem uma pergunta que não me larga: onde foi parar a brasilidade nas telas. Desenhamos produto brasileiro com repertório importado, e sai muita interface que poderia ter nascido em qualquer lugar do mundo. Ando atrás de uma resposta que caiba na disciplina de UI, com regra, critério e exemplo, do tamanho de coisa que se ensina.

Como eu trabalho

Começo pelo problema. Antes de desenhar, quero entender a restrição real, quem é afetado e qual decisão de negócio está em jogo. O design entra cedo, onde ainda dá para mudar o rumo.

Pesquiso antes de abrir o Figma. Entrevista com quem usa, conversa com quem opera por dentro, e pesquisa quantitativa pra saber se o que eu ouvi vale além das pessoas com quem falei. Isso vira material que o time consegue usar: persona construída em cima de pesquisa, mapa de empatia, o que foi ouvido escrito com nome e frequência. O achado que muda um projeto raramente está em benchmark: ele aparece quando alguém descreve o trabalho de verdade, com gambiarra e tudo.

Trabalho no duplo diamante, e o primeiro losango é o que mais economiza tempo. Antes de propor solução, abro o problema: quem sente, com que frequência, o que já tentaram e por que não colou. Mapeio a jornada inteira e, quando a dor é de serviço, desço pro blueprint, que é onde aparece o que quebra nos bastidores e nunca chega na tela. Só fecho quando o problema cabe numa frase que o time repete igual. Solução que nasce antes disso costuma ser bonita e resolver a coisa errada.

Depois entra o lean. Toda proposta vira hipótese, e a pergunta passa a ser qual é a menor coisa que responde: um protótipo clicável no Figma, uma sessão rápida com quem usa, um número que o analytics já tem e ninguém foi olhar. Meço em vez de chutar. Hipótese que cai cedo cai barata; a mesma hipótese seis meses adiante já virou roadmap.

Acessibilidade entra cedo, junto com a primeira decisão de desenho: contraste medido, ordem de foco, alvo de toque e o que o leitor de tela vai anunciar definem o layout, e sai bem mais barato resolver ali do que na auditoria seis meses depois. Rodo o IBM Equal Access no navegador, os plugins de contraste e simulação dentro do Figma, e ouço a tela no leitor de tela em vez de só olhar para ela.

Onde ensino

Dou aula em graduação e pós-graduação, nas cadeiras de Design de Interfaces e DesignOps. Ensinar é onde a prática vira método: o que eu faço no automático precisa virar passo explicável, e o que só funciona no meu contexto não sobrevive à primeira pergunta de aluno.