- Publicado por
- Helena Duppre
- Data
- Categoria
- reflexões
- Leitura
- 3 min
Ninguém solta a mão de ninguém… ops, quis dizer da IA
Soltar a mão do time foi fácil. Da IA, eu escolhi não soltar
palavras-chave: liderança de design, ia aplicada, gestão de pessoas
Sempre liderei dando liberdade e soltando a mão assim que dava. Com a IA, a revisão humana virou parte fixa do processo, de propósito. Uma reflexão sobre human-in-the-loop e sobre o cansaço que um estudo publicado na Harvard Business Review chamou de AI brain fry.
Esse texto começou como um post no LinkedIn e ficou grande demais para caber lá. Então trouxe para cá, onde dá para conversar com mais calma.
Passei a carreira inteira fugindo do microgerenciamento e hoje passo boa parte do dia revisando o trabalho de alguém. A diferença é quem está do outro lado: agora é a IA. E esse acompanhamento de perto cansa bem mais do que eu imaginava quando comecei.
O meu jeito de liderar
Sempre liderei dando liberdade. Eu ficava por perto para checar se estava tudo bem, mas chegava uma hora em que eu soltava a mão e dizia: vai. Microgerenciar nunca foi o meu jeito de trabalhar com gente.
Isso mudou um pouco quando passei a liderar pessoas de países e culturas diferentes. Muitas me procuravam para revisar cada tarefa e cada tela antes do ok final, um perfil bem diferente do que eu via aqui no Brasil, e eu demorei um pouco para entender o motivo.
Para elas, quem lidera é a referência, e buscar o líder é buscar aprendizado. Pedir o meu ok era uma forma de aprender comigo. Então eu ensinei, acompanhei de perto e, com o tempo, soltei a mão de novo. A revisão de tudo foi uma fase, e a fase passou.
Com a IA, a revisão é o processo
Com a IA, a revisão humana segue fazendo parte do trabalho, e de propósito. Trabalho com human-in-the-loop, o modelo em que a ferramenta executa e uma pessoa valida antes de qualquer coisa seguir adiante. A IA acelera muito, e o critério final continua sendo meu.
Uma palavra lida fora de contexto pode levar uma resposta para outro lugar, e é nessa hora que o olhar de quem conhece o projeto faz diferença. Com o time, a revisão era uma fase do aprendizado. Com a IA, ela faz parte do desenho do processo, e é ali que mora a qualidade do que eu entrego.
Só que esse olhar tem custo. Revisar com atenção é trabalho cognitivo pesado, e ele quase nunca entra na conversa quando a gente comemora o quanto a IA deixou tudo mais rápido.
O cansaço ganhou nome
Em março deste ano, pesquisadores do Boston Consulting Group e da Universidade da Califórnia em Riverside publicaram na Harvard Business Review um estudo que deu nome a isso: AI brain fry. Eles definem o termo como a fadiga mental causada pelo uso ou pela supervisão excessivos de ferramentas de IA, além da capacidade cognitiva da pessoa.
O levantamento ouviu 1.488 profissionais em tempo integral nos Estados Unidos, e 14% deles relataram esse quadro. As tarefas com mais demanda de supervisão vieram associadas a mais esforço mental, mais fadiga e mais sobrecarga de informação. E quem relatou brain fry também relatou 39% mais erros graves.
Vale a ressalva: são dados autorrelatados, de um levantamento feito num momento só, conduzido por uma consultoria que vende transformação com IA. Eles mostram associação, sem provar causa, e o estudo olha para quem supervisiona agentes, um caso parecido com a revisão que eu faço no dia a dia.
Mesmo assim, o número dos erros diz muito. A revisão existe justamente para segurar o erro, e no estudo quem está esgotado diz errar mais. Aqui eu já passo do que os dados provam, mas a minha leitura é que o human-in-the-loop só funciona de verdade se o humano estiver inteiro.
O estudo também separa o brain fry, que é cansaço cognitivo, do burnout, que é exaustão emocional. Quem usava IA para substituir tarefas repetitivas relatava burnout 15% menor. O que pesa é o volume de supervisão, e os próprios autores recomendam limitar quantos agentes uma pessoa acompanha ao mesmo tempo.
Para quem lidera, acho que fica um lembrete: revisar é trabalho, e precisa entrar na conta do tempo e da energia de quem revisa, inclusive da própria liderança. Eu soltei a mão do time quando ele estava pronto. Da IA, escolhi não soltar, e estou aprendendo a fazer isso sem me esgotar.
Um beijo e até a próxima!
Pra quem quiser ir na fonte:
- Bedard, J., Kropp, M., Hsu, M., Karaman, O. T., Hawes, J. & Kellerman, G. R. (2026). When Using AI Leads to "Brain Fry". Harvard Business Review, 5 de março de 2026 (ler na HBR). Autoria, afiliações e data. O corpo do artigo fica atrás do paywall.
- Schreiner, M. (2026). Study warns of "AI Brain Fry" as workers hit cognitive limits overseeing AI agents. The Decoder, 9 de março de 2026 (ler). Definição do termo, amostra de 1.488 profissionais, os 14%, os 39% a mais de erros graves, os 15% a menos de burnout, a recomendação de limitar agentes simultâneos e as ressalvas sobre autorrelato e sobre a BCG.
- The Register (2026). Matéria de 9 de março de 2026 sobre o estudo (ler). Segunda fonte para a amostra, para os 39% (erros autorrelatados) e para os 15%.
Gostou do texto?
Leia também

Liderar gente na era dos agentes: o que a IA acelera e o que ela esconde
Se uma pessoa com IA entrega o que duas entregavam, metade do time virou custo? No mesmo experimento que dá munição pra essa conta, as soluções do topo vieram quase três vezes mais de dupla com IA do que de gente sozinha sem IA. A conta compra a média e vende o topo — e ainda deixa de fora o degrau onde o júnior aprendia.
13 min de leitura
O que é design? Voltei pra reescrever minha própria resposta
Voltei pra reescrever meu texto de 2019. O que mudou? A empatia ficou mais urgente nos tempos de IA e os dados mais importantes do que nunca.
3 min de leitura
Do /imagine ao time de agentes
Do Midjourney ao Claude: minha jornada de IA aplicada ao design de produto, de quem pedia imagem a um bot no Discord a quem hoje dirige times de agentes.
5 min de leitura
carregando comentários...