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Helena Duppre
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Desenhada para quem não sabia ler: o design da urna eletrônica

22 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

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palavras-chave: urna eletrônica, design universal, acessibilidade, design de produto

Teclado de telefone, voto pelo número, tela de confirmação e um pilili pensado para o mesário. A urna eletrônica brasileira fez trinta anos em 2026 e é um dos cases de design de produto mais interessantes do país, porque foi desenhada a partir de quem tinha mais chance de ficar de fora.

Eu sei que o assunto do momento é quem vai ganhar, mas toda eleição eu fico reparando na urna como peça de design. Esse ano ela completa trinta anos, e achei que estava na hora de escrever sobre ela.

Close do teclado da urna eletrônica: as teclas de número têm braile, e embaixo ficam as teclas BRANCO, CORRIGE e CONFIRMA, também com braile
Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE

Pensa na cena. Você entra na cabine, digita dois números, aparece a foto de alguém na tela, você aperta a tecla verde e a máquina responde com aquele pilili que qualquer brasileiro reconhece de olho fechado. Ninguém precisou te ensinar. E a mesma interface atende quem tem doutorado, quem nunca foi à escola e quem não enxerga a tela.

Tudo isso foi desenhado de propósito, lá em 1995, e é por isso que eu acho a urna um dos cases de design de produto mais interessantes do país. Tem teste em campo antes do lançamento, orçamento apertado, negociação com stakeholder e uma evolução de acessibilidade que continua até hoje.

Uma urna "simples e barata"

Em março de 1995, o TSE montou uma Comissão de Notáveis para propor mudanças no sistema eleitoral, e uma das frentes era informatizar o voto. O ministro Carlos Velloso, que presidia o tribunal, recusou as urnas estrangeiras oferecidas ao Brasil com uma frase que eu adoro: "vamos fazer uma urna tupiniquim, simples e barata".

Entre março e agosto de 1995, a comissão testou protótipos que alguns TREs já tinham feito, e cada um deixou uma ideia que ficou. O de Minas Gerais, feito com a IBM, propunha votar só com números num teclado de telefone. O de Mato Grosso imprimia um boletim com o resultado da urna.

Depois, a parte técnica ficou com um grupo pequeno, conduzido por Paulo César Camarão, secretário de informática do TSE, com engenheiros do INPE, das três Forças Armadas e do CPqD.

Antes da estreia teve teste com gente de verdade. Em maio de 1995, três distritos do interior de São Paulo votaram em computadores adaptados nos plebiscitos que os transformaram em municípios, com pouco mais de quatro mil eleitores aptos. A tela já mostrava sim, não e branco, e depois pedia para confirmar ou corrigir.

Em julho de 1996 veio um grande simulado em Curitiba, e o relato do TRE do Paraná é o sonho de qualquer time de produto antes de um lançamento: "tudo o que poderia acontecer de errado efetivamente aconteceu". Deu tempo de corrigir antes de outubro.

No dia 3 daquele mês, cerca de 32 milhões de pessoas votaram eletronicamente em 57 cidades, um terço do eleitorado. Quatro anos depois, em 2000, já era o país inteiro, com mais de 350 mil urnas.

O usuário era quem não sabia ler

Agora a parte que mais me interessa. Em 1996, 14,7% dos brasileiros com 15 anos ou mais não sabiam ler, segundo a PNAD, na série organizada pelo Ipea. No Nordeste eram 28,7%, quase um em cada três adultos. Uma urna que pedisse para procurar o nome do candidato deixaria essa gente de fora.

O projeto também mirava custo e robustez, e o teclado de telefone tem motivo registrado. Giuseppe Janino, que foi secretário de TI do TSE, explicou que a escolha foi "para possibilitar que o analfabeto e o deficiente visual pudessem interagir". As teclas têm braile desde 1996, e o 5 tem um ponto em relevo para quem não lê braile.

Essa é a decisão que eu mais admiro no projeto todo. Desenharam para quem tinha mais chance de ficar de fora, o eleitor analfabeto e o eleitor cego, e o resultado serviu para todo mundo. Quem lê com fluência nem percebe que a interface foi pensada para outra pessoa. Design universal é isso, partir da exceção.

Tem economista medindo isso. Thomas Fujiwara, em 2015, na Econometrica, mostrou que a urna reduziu os votos perdidos por erro na cédula de papel e trouxe para dentro da eleição muita gente com pouca escolaridade. Os resultados sugerem que isso puxou mais gasto público com saúde, mais pré-natal e menos bebês com baixo peso entre mães menos escolarizadas.

Jairo Nicolau achou algo na mesma direção olhando a eleição de 1998: com a urna, o voto em branco caiu nos quatro cargos. O nulo caiu para deputado e subiu para governador e presidente, o que pode ter a ver com voto de protesto.

Os dois estudos comparam urna com cédula, então o crédito não é todo da interface. Mesmo assim, me arrepia pensar no quanto essa troca mudou quem é contado numa eleição.

Cortar até caber em qualquer mão

O outro lado dessa decisão foi cortar muito. As premissas que Camarão deixou documentadas parecem um briefing de produto: voto por número, bateria própria, robustez, chance de corrigir antes do registro definitivo, dados do voto na tela, manuseio fácil e custo dentro do orçamento. Repara no que ficou de fora: lista de nomes para procurar e menu para navegar.

Votar pelo número foi uma decisão difícil de vender. Camarão contou que foi uma das mudanças mais complicadas, porque os candidatos "têm a marca deles em seus nomes". Segundo o TRE do Paraná, foi preciso um trabalho intenso de convencimento no Congresso. Quem já tentou tirar de um formulário o campo que um diretor queria sabe o tamanho dessa conversa.

O fluxo também foi pensado para o erro. Desde os testes de 1995, a urna oferece branco, corrige e confirma, e o voto só vale depois do confirma. Desde 1998, essa tela mostra a foto de todos os candidatos. É a mesma tela de revisão que a gente desenha antes de qualquer envio importante.

O pilili nasceu de uma necessidade bem prática: o mesário precisava saber que o eleitor tinha terminado. Antônio Esio Salgado, engenheiro do INPE no grupo técnico, conta que a equipe ouviu vários sons do fabricante até surgir o pilili e alguém dizer "é esse aí". O feedback sonoro mais famoso do país foi feito para quem estava fora da cabine.

Esse desenho aguentou bem o tempo. A urna já passou por 14 modelos, ganhou biometria e criptografia, e até 2024 a interação do eleitor seguiu praticamente inalterada, como registra um artigo apresentado no IHC 2025. Quase trinta anos com a mesma interação é raro em qualquer produto digital.

A acessibilidade foi crescendo aos poucos

O que mudou de verdade nesses trinta anos foi a acessibilidade. Em 2000 a urna ganhou saída para fone, com áudio gravado que dizia o cargo e o número, sem o nome do candidato. A síntese de voz que fala o nome só chegou em 2020, e o intérprete de Libras em vídeo na tela, em 2022.

Linha do tempo da urna eletrônica de 1996 a 2026, em escala real: uma barra preta mostra que o teclado de telefone, o voto pelo número e a tecla CONFIRMA são os mesmos desde 1996. Embaixo, os marcos de acessibilidade: braile nas teclas em 1996, áudio no fone em 2000, voz que diz o nome do candidato em 2020, intérprete de Libras em 2022, voz Letícia em 2024 e fonte legível com barra de progresso em 2026. Quatro dos seis marcos chegaram depois de 2020

Em 2024, a urna adotou a voz Letícia, que é a voz da cantora Sara Bentes, que nasceu com deficiência visual. O motor é um software livre criado por programadores cegos, e a ideia veio de uma sugestão da Organização Nacional de Cegos do Brasil. Gente cega ajudou a desenhar o que ia atender gente cega.

É o tipo de projeto que eu queria ver mais vezes. E ele atende cada vez mais gente: em 2026, o cadastro eleitoral tem quase 2 milhões de pessoas com deficiência registrada, 42% a mais que em 2022.

Este ano, justo no aniversário de trinta anos, a tela mudou. A urna passou a usar a Atkinson Hyperlegible, fonte do Braille Institute desenhada para deixar cada caractere mais definido. As telas de votação foram renovadas e ganharam uma barra fixa no topo, que mostra quais cargos já receberam voto e quais ainda faltam.

Os intérpretes de Libras agora também indicam voto em branco, voto nulo e voto de legenda. Parte das ideias veio de um concurso com estudantes da USP. E o Silvio Trindade, que tem deficiência visual e nas últimas eleições precisou de lupa para ler a tela, testou a nova interface e acha que nem vai precisar dela.

Eleitor treina o voto numa urna com a interface de 2026, numa ação do TSE na Rodoviária de Brasília em agosto. No alto da tela aparece a barra com as etapas da votação
Foto: Luiz Roberto/Secom/TSE

Onde a urna ainda tropeça

Parar no elogio seria desonesto. Em 2025, Nogueira e Monteiro, da UFC, avaliaram a comunicabilidade da urna atual e do simulador do TSE com nove participantes. Eles encontraram dificuldade para entender o voto em branco e o voto nulo, e sugerem mensagens de apoio que expliquem melhor o que cada ação faz.

O próprio artigo lembra que um estudo de 1999 já apontava problema no voto em branco. E tem uma lacuna que me incomoda como pesquisadora: não encontrei nenhuma pesquisa de usabilidade publicada pelo TSE, com método e amostra.

O que aparece nos registros oficiais são simulados de operação e, em 2020, um teste da síntese de voz com dois eleitores com deficiência. Pode ser que exista mais coisa e não seja pública. Se alguém souber, me conta!

O que eu levo daqui

Se eu tivesse que tirar uma lista disso para o próximo projeto, ela seria curta. Comece pela pessoa que tem mais chance de ficar de fora e veja quanta gente vem junto. Corte até a interação caber num gesto que o usuário já conhece. Mostre o que vai acontecer antes de registrar, e deixe corrigir. Lembre que o feedback também serve para quem está do lado de fora da tela.

Na próxima vez que você ouvir o pilili, presta atenção: tem trinta anos de decisão de design dentro daquele som. Um beijo e até a próxima!


Pra quem quiser ir na fonte:

  • Brasil (1995). Lei nº 9.100, de 29 de setembro de 1995. (link). A data da eleição de 1996 e a autorização para o voto eletrônico.
  • TSE (2014). Conheça a história da urna eletrônica brasileira, que completa 18 anos. Portal do TSE (link). O grupo técnico, o depoimento de Camarão sobre o voto pelo número e a fala de Janino sobre o teclado de telefone.
  • TSE (2016). Série Urna Eletrônica: conheça a história da informatização do voto no Brasil. Portal do TSE (link). A fala de Janino e a expansão até o país inteiro.
  • TSE (2021). Urna eletrônica 25 anos. Portal do TSE (link). A frase de Carlos Velloso sobre a "urna tupiniquim".
  • TSE (2022). 90 anos da Justiça Eleitoral: urna eletrônica revolucionou eleições. Portal do TSE (link). O Coletor Eletrônico de Votos e a origem no INPE e no CTA.
  • TSE (2023). Urna eletrônica de 2000 permitiu a primeira eleição 100% informatizada. Portal do TSE (link). O áudio de 2000.
  • TSE (2025). Conheça a evolução da urna eletrônica: de 1996 a 2024. Portal do TSE (link). Os 14 modelos, o braile desde 1996 e a foto de todos os candidatos a partir de 1998.
  • TSE (2011). Justiça Eleitoral brasileira assegura direitos da pessoa com deficiência. Portal do TSE (link). O braile e o ponto em relevo na tecla 5.
  • TSE (2020). Eleitor com deficiência visual poderá ouvir nome do candidato na urna. Portal do TSE (link). A síntese de voz e o teste com dois eleitores.
  • TSE (2022). Federação dos Surdos agradece TSE pela implantação de Libras na urna eletrônica. Portal do TSE (link). O intérprete de Libras na tela.
  • TSE (2024). Eleições 2024: urnas contarão com novo recurso de acessibilidade para pessoas com deficiência visual. Portal do TSE (link). A voz Letícia, Sara Bentes, o RHVoice e a sugestão da ONCB.
  • TSE (2026). Faltam 28 dias: eleitorado com deficiência cresce e Justiça Eleitoral reforça acessibilidade e inclusão. Portal do TSE (link). O número de eleitores com deficiência em 2026.
  • TSE (2026). Urna eletrônica ganha nova interface para tornar votação mais acessível e intuitiva. Portal do TSE (link). A fonte Atkinson Hyperlegible, a barra de progresso, a Libras no branco, nulo e legenda, o concurso da USP e o depoimento de Silvio Trindade.
  • TRE-SP (2026). 30 anos da urna eletrônica: Comissão de Notáveis estruturou as bases para a máquina de votar em 1995. (link). A comissão e os protótipos dos TREs.
  • TRE-SP (2025). 30 anos da urna eletrônica: o edital mais importante da história da Justiça Eleitoral. (link). As premissas de projeto documentadas por Camarão.
  • TRE-SP (2026). 30 anos da urna eletrônica: teste em São Paulo abriu caminho para o voto eletrônico no Brasil. (link). Os plebiscitos de 1995 com o protótipo.
  • TRE-SP (2026). Som da urna eletrônica completa 30 anos: conheça a história do pililili. (link). A origem do pilili e o depoimento de Antônio Esio Salgado.
  • TRE-PR. A urna eletrônica. Portal da Memória (link). O simulado de Curitiba, os números da primeira eleição e o convencimento do Congresso (a data da eleição está errada lá; a lei diz 3 de outubro).
  • Ipea (2008). PNAD 2007: primeiras análises — educação. Comunicado da Presidência nº 12 (PDF). A taxa de analfabetismo de 1996, no Brasil e no Nordeste.
  • Fujiwara, T. (2015). Voting Technology, Political Responsiveness, and Infant Health: Evidence from Brazil. Econometrica, 83, 423–464 (resumo). A urna, os votos perdidos e o efeito na saúde (o artigo é pago; usei o resumo).
  • Nicolau, J. (2015). Impact of Electronic Voting Machines on Blank Votes and Null Votes in Brazilian Elections in 1998. Brazilian Political Science Review, 9(3) (PDF). O voto branco e o nulo em 1998.
  • Nogueira, E. L. & Monteiro, I. T. (2025). Uma Avaliação da Comunicabilidade da Urna Eletrônica Brasileira. Anais do XXIV IHC (link). A dificuldade com voto branco e nulo, e a interação praticamente inalterada desde 1996.
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